Papai Noel do PT, Luiz Felipe Pondé

O PT quer de dar um presente de Natal para o Brasil: caos social que ajude a derrubar a economia e, com isso, aumentar as chances de ele voltar ao poder. Seu Papai Noel Lula livre afirmou que o projeto do PT é retomar o poder em nome da democracia.

Coitada, a democracia é a famosa casa da mãe Joana: todo mundo mete a mão.

O PT revelou-se uma gangue. Tendo parte da sua origem no movimento sindical, erguido nos escombros da ditadura, só se podia esperar isso mesmo. Grande parte dos sindicatos, no mundo inteiro, é máfia com metafísica política: a ideia é tirar dinheiro de quem trabalha.

Ao revelar-se uma gangue, o PT nunca fez autocrítica. Não precisa. Santos não precisam rever seu passado, dizem até os intelectuais orgânicos que trabalham para a causa. O PT nunca foi sério no sentido que esperavam dele. Para o PT, o Brasil é um galinheiro —de vez em quando ele vem e mata uns frangos. O único projeto do PT sempre foi fazer do Brasil o seu quintal, mesmo que para isso tivesse que matar muitos frangos “resistentes”. Associar o PT à democracia é para gente de má-fé.

Eu sei, eu sei. O governo Bolsonaro desfila atos e gestos simpáticos à ditadura. Voltaremos a isso já. Mas o PT tem sofisticação intelectual suficiente a seu serviço pra montar um projeto totalitário silencioso, e com “verniz”, com palmas da “comunidade internacional”, em que ninguém perceba de bate pronto. E isso estava em curso. Basta você ter a seu favor as pessoas certas, você cria um sistema autoritário em “nome da democracia”. Quem lê história do século 20 sabe disso de cor.A bola da vez é tentar criar caos social (“fazer um Chile aqui”) para derrubar a sensação de que alguma normalidade econômica começa a se instalar. Preste atenção e verá todos os economistas orgânicos do partido trabalhando para pôr em dúvida a ideia de “austeridade”. Engraçado: existem dois tipos de dinheiro, o meu e o dos outros. Com o meu prático austeridade, se não quebro. Com o dos outros proponho o socialismo e torro. Austeridade nada mais é do que gastar menos do que você ganha.

Não quero com isso propor que o mercado cuide de bebês. O mercado nunca resolveu tudo. Petistas fazerem crítica econômica depois de terem destruído a economia do país? Isso, sim, é entregar o galinheiro na mão da raposa.

Quero dizer apenas que aquela economia pequenininha que faz as pessoas sorrirem, que talvez comece a melhorar por aqui, precisa ser destruída pelo exército de asseclas do PT para impedir que os liberais continuem a ter alguma chance de administrar o país depois de “séculos” de mitos econômicos. Se a economia melhorar, fica mais difícil derrubar o Bolsonaro, claro, porque o bolso é o órgão mais sensível do homem e da mulher (para não me acusarem de sexista em cima do Natal).

Se o PT tiver de destruir o cotidiano do “povo brasileiro”, o fará sem cerimonia, porque o único povo brasileiro que jamais importou ao PT foi o “seu povo brasileiro”. E aí vem as bobagens faladas por membros do governo Bolsonaro, quando não ele mesmo.

Ficar ameaçando o país com um “novo AI-5” é coisa de ignorante histórico, geopolítico e moral. Cada vez que alguém fala uma idiotice dessa, o PT fica de pau duro. A ideia de gerar desordem visa fazer com o que todo mundo que não concorde com o PT e seus asseclas caia na categoria de fascistas, além de derrubar a economia e pôr as pessoas em pânico. A pequena utopia próxima dessa turma é caos nas ruas, polícia batendo e matando, e Brasília falando horrores e elogiando ferramentas violentas do passado.

Imediatamente a “comunidade internacional” e seus intelectuais (e Greta Thunberg!) gritarão que o Brasil é uma ditadura. O engraçado é que você pode destruir o cotidiano das pessoas e ainda assim dizer que você está a favor delas. Basta ler história do século 20 pra ver isso.

A verdade é que a melhoria possível da economia em 2020 pode complicar ainda mais para os antigos donos do galinheiro. E eles farão qualquer coisa pra isso não acontecer. Querem retomar o poder e voltar a roubar livremente.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Um casamento e um funeral – João Pereira Coutinho

Dizia Mae West que a velhice não é para gente frouxa. No meu caso, ainda é cedo para dizer. Mas se trocarmos velhice pela separação amorosa, assino embaixo. Já dei várias vezes para esse peditório.

Todos os anos, o Oscar premia atores. Mas haverá maior representação dramática do que manter o rosto impassível perante a “ex” quando sentimos que estamos a morrer por dentro?

Quem sofreu por amor e manteve as aparências por um vago e talvez absurdo sentimento de autorrespeito é melhor profissional do que uma Meryl ou um Daniel Day-Lewis.

Embora, aqui entre nós, seja difícil bater Adam Driver e Scarlett Johansson em “História de um Casamento”, o mais recente filme de Noah Baumbach para a Netflix.

Gosto de Baumbach por razões estritamente pessoais: cresci com ele. Não no sentido biológico do termo, embora essa coincidência seja importante —falo sobre Baumbach como os meus pais falavam de Woody Allen. Somos, em suma, colegas de geração.

Mas existe uma afinidade espiritual que é mais importante do que a biologia: os temas do cinema de Baumbach são os meus temas, as minhas preocupações, as minhas obsessões. Da deriva existencial de “Tempo de Decisão” à fobia do compromisso no espantoso “O Solteirão”, Baumbach tem sido o meu Virgílio na divina comédia da minha vida.

“História de um Casamento” não é exceção. Resumidamente, é a história de Charlie e Nicole. Ele, diretor de teatro. Ela, atriz. Apaixonaram-se, algures no passado, e nas primeiras sequências do filme até acreditamos que eles continuam nesse planeta quando se elogiam mutuamente.

Falsa impressão. Estão em terapia para casais e os elogios são um esforço para salvar o que pode ser salvo. Sem sucesso.

O que acontece a seguir é o calvário habitual dos ex-amantes, contado com o dramatismo cômico de Baumbach. Sim, lá encontramos o estoicismo das aparências, que esconde as lágrimas em privado. Pelo menos, até os advogados entrarem em cena.

Quando se sobe para esse patamar de guerra, a racionalidade vai derretendo e o outro é um estranho, uma
ameaça, um inimigo. É quase surreal como foi possível gostar daquela pessoa, daquele farrapo, daquele monstro.

Começa a luta: o que antes eram pequenas imperfeições, conversas sem significado, simples estados de alma partilhados na intimidade do quarto são agora crimes de lesa-majestade, fraudes dignas de um Madoff, matéria mais que suficiente para o Tribunal Penal Internacional.

E, com os crimes, entram em cena as “vidas não vividas”: se não fosse o outro, a tirania do outro, a asfixia do outro, a nossa vida seria um passeio no parque. Houve aqui um roubo imperdoável. Haverá indenização?

Esse caudal de acusações e impotências desagua no ódio irracional, o avesso do amor irracional de outros tempos. É um dos grandes momentos do filme: quando Charlie e Nicole se encontram a sós, tentam uma conversa “civilizada” —e acabam dizendo o impensável na cara um do outro.

São patéticos e cruéis. Mas aquela crueldade não é propriamente real. É circunstancial. O resultado é divertidíssimo e tristíssimo em partes iguais. Eu não disse que sobreviver a um divórcio merece sempre um Oscar de representação?

Sobreviver, eis a palavra. Porque sobrevivemos sempre —ou, talvez mais importante, nunca aprendemos nada. Essa, aliás, é a pergunta: para que amar se perder dói tanto? O escritor C.S. Lewis, que formulou a questão, dizia que a dor que sentimos faz sempre parte da felicidade que tivemos.

É uma boa resposta. Verdadeira, também. Mas Noah Baumbach ensaia outra: colocando Charlie, entre amigos, a cantar “Being Alive”, de Stephen Sondheim.

A canção pertence ao musical “Company”, uma das obras-primas da Broadway, e a sua mensagem é, ao mesmo tempo, romântica e antirromântica.

A pessoa que amamos pode ser o nosso calcanhar de Aquiles. Mas é precisamente esse calcanhar que tornava Aquiles humano. E nós precisamos dessa humanidade; até precisamos do inferno que ela
contém para nos sentirmos vivos. Quem troca esse inferno por um paraíso de solidão?

Eu não. Noah Baumbach também não. Muito menos Charlie e Nicole, apesar de tudo e de tanto.

Se hoje forem a Los Angeles e procurarem por eles, é possível que continuem separados. Duvido que estejam sozinhos. Como sempre acontece, cultivamos as nossas ilusões com a mesma paixão com que um dia as iremos renegar.

Luiz Felipe Pondé – Mística e preconceito

Algumas palavras devemos usar com cuidado hoje em dia, devido ao ruído contínuo em que vivemos. A palavra “mística” é uma delas. Ela tem raízes no grego e, segundo o maior historiador da mística cristã em atividade, Bernard McGinn, sua primeira aparição no mundo cristão está associada à busca dos primeiros monges e padres gregos da Igreja como Clemente de Alexandria (150 – 215) e Orígenes (184 -253) pelas camadas interpretativas escondidas (aqui estaria o sentido originário grego) na Bíblia.

A palavra seguirá seu curso até chegar, por volta do século 16, a ter o sentido que mais comumente se aplica nos estudos de espiritualidade na atualidade —experiência direta de Deus. Isso não significa que já no século 13 ou 14 não existissem pessoas na Europa (e não só nela ou no cristianismo), ou mesmo antes, que relatassem alguma forma de “cognitio Dei experimentalis”, ou seja, um conhecimento de Deus baseado numa experiência, e não no “mero” estudo das sagradas escrituras.

A aceitação desses relatos pela hierarquia da Igreja era objeto de dúvida, de discussão, ou mesmo de condenação pela Inquisição.

O fato é que a interpretação de um relato desse tipo por quem o ouve não necessariamente o ratifica como sendo o que a pessoa mística diz que é. Dito de outra forma: não é evidente que quem ouve o místico falar acredite no que ele está dizendo. A literatura especializada está cheia de casos em que, ao contrário do que as místicas diziam, seus interlocutores entendiam que elas, na verdade, tinham uma experiência direta com o Diabo, e não com Deus.

Só acredita que as coisas sejam óbvias quem leu pouco, seja de que assunto for. Por exemplo, você pode achar, vendo um filme, que a pessoa que ouve o relato de uma jovem mística em Paris, em pleno século 14, evidentemente teria que acreditar nela. E se não o faz é por questão de gênero, de classe social ou de raça. A redução das dificuldades de interpretação de relatos místicos por parte de quem os ouve a categorias de poder político e econômico é típico de espíritos pobres de espírito (redundância proposital).

Não. Você pode se considerar a pessoa de cabeça mais aberta do mundo, mais sem preconceito, mais liberal em sentido moral, mais bem informada, e tudo mais de “bom”, e ouvir um relato hoje que se enquadra perfeitamente no tipo de relato místico feito na Idade Média por mulheres místicas, e achar que a pessoa diante de você é uma mentirosa, ou, na melhor das hipóteses, uma louca.

Se a Idade Média queimava místicas, hoje nós as impregnamos de medicação psiquiátrica. Mesmo os inteligentinhos da esquizo-análise pensariam haver ali algo de “regressivo”.

Pelo menos, os medievais julgavam haver ali uma verdade (o Diabo), nós achamos haver ali apenas a miséria de um cérebro desordenado. Nesse caso, Deus está de fato morto.

Este é um exemplo crasso da secularização. O sobrenatural migrou pra periferia do mundo cognitivo. Claro que nas instituições religiosas como a Igreja Católica permanece havendo espaço para as místicas e místicos. Mas, fora de instituições religiosas, entendemos que relatos do tipo “Deus fala comigo” ou “Sinto a presença de Jesus aqui nessa sala” são menos objeto de crença do que uma conversa tipo mesa branca “tem um encosto nessa sala”.  É mais fácil acreditar num Preto Velho à la Kardec do que na presença de Jesus nalgum lugar.

Há também a suspeita de que quem fala uma coisa dessas está fazendo proselitismo: está querendo levar gente para a igreja dela e faturar uma grana. Ou se aproveitar sexualmente de alguém. Ou é uma coitada vítima de pais opressores e perversos.

O fato é que se você defender o uso, por exemplo, da maconha, você pode ser visto como alguém que está prestando alguma forma de serviço aos jovens. Se você defender a transexualidade você estará trabalhando pela liberdade. Agora, se você defender “a palavra de Deus”, você estará sempre delirando ou se aproveitando dos outros. O fato é que o preconceito contra os místicos existe até hoje, só que agora ele é “científico” e progressista.

Felicidade e virtudes

Confesso que a palavra felicidade me causa certo enfado. As discussões sobre felicidade, normalmente, estão associadas, me parece, mais a causas de infelicidade do que propriamente a possibilidade de organizar algum saber que não seja imediatista, instrumental e imaturo sobre uma vida menos infeliz.

Em resumo, acho que o debate, incluindo a publicidade, sobre felicidade mais atrapalha do que ajuda, uma vez que vivemos um surto de depressão e ansiedade, principalmente entre jovens.

O modelo estratégico-pragmático, típico do paradigma do coaching e derivados, me parece causar mais expectativa e ansiedade, e, portanto, mais infelicidade, na medida em que trata a felicidade como um estado passível de ser alocado em metas existenciais, numa espécie de Excel existencial.

Evidente que a felicidade tem uma história na história da filosofia que transcende esse blablablá das pseudoterapias calcadas no Excel existencial. A verdade é que o entendimento de felicidade hoje é, em grande medida, construído a partir da ideia de realização de desejo, o que, na filosofia, sempre foi visto com uma certa desconfiança.

Gostaria de pensar hoje no vínculo entre felicidade e virtude, traço da escola antiga de Aristóteles.

O filósofo grego dizia que o objetivo da ética é a felicidade. Mas qual felicidade? Nessa direção, gostaria de pensar que, talvez, a felicidade menos banal esteja associada a um certo conjunto de virtudes práticas (arête ethikê), e não escrava da mera realização de desejo, como é comum pensar atualmente.

Se você consegue praticar na vida um certo número de virtudes, talvez você consiga atingir uma felicidade um pouco menos imatura.

Por exemplo, a prática da generosidade, virtude que combate dois vícios opostos, a mesquinhez e a prodigalidade (torrar dinheiro, em linguagem comum), nos ensina a partilhar de modo ordenado o que temos, e, assim, a nos desapegar dos excessos de amor aos bens materiais.

A leveza decorrente dessa condição pode produzir um estado de espírito que nos ajude a ver a vida numa perspectiva menos narcísica. Mas, como toda virtude, só se aprende praticando sempre.

Isto é: só se é generoso sendo generoso e não pensando como é importante sê-lo. O mesmo para a humildade, virtude contrária à arrogância e ao seu oposto, a auto-humilhação. O mesmo para a justiça, virtude contrária à perda do discernimento entre dar a alguém o que ele não merece ou negar a alguém o que ele merece.

A ideia de felicidade que daí surge significa um esforço de controle dos vícios, dando à pessoa um amadurecimento que nasce, justamente, da capacidade de ser constante neste mesmo esforço. Nada a ver com a mera realização do desejo, mas uma realização maior: aquela de aprender a controlar o efeito dos vícios sobre si. Daí a ideia de autonomia como forma da felicidade tão comum na filosofia grega antiga.

Já na tradição judaico-cristã, aparece um outro conteúdo que me parece essencial para uma experiência de felicidade menos banal e menos efêmera. Este conteúdo decorre das virtudes teologais (como dizem os católicos). Virtudes teologais são virtudes que dependem da ação de Deus para se realizar em você ou em mim: caridade (amor), fé e esperança.

Gosto de pensar a caridade na chave do amor e da misericórdia. Mas não apenas no sentido de que amar alguém assim retira você de você mesmo e rompe a cela do eu apaixonado por si mesmo, modo presente na filosofia de autores como Santo Agostinho. Não porque esse modo não seja consistente, mas apenas para pensar num foco menos evidente: receber a misericórdia de alguém, ou seja, sentir-se perdoado quando você se reconhece culpado é um bálsamo para seres frágeis moralmente como nós.

Claro que a recepção da misericórdia e do perdão pressupõe a humildade como terreno onde a caridade pode se instalar como bênção que nos é dada.

A fé nas coisas é intimamente associada à esperança. Para mim, esta é a maior das virtudes hebraicas: nos retira do pessimismo e nos devolve um lugar no mundo e na cadeia das ações humanas.

 

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Utopia liberal

O pensamento liberal entre nós engatinha. Não há quase tradição de reflexão liberal no Brasil. Os motivos são muitos —a ditadura de 1964, que destruiu a validade do pensamento que não seja de esquerda, construindo às avessas este como reserva de ética política no país (o que é ridículo como fato histórico), a ausência de espaços institucionais de formação em que jovens pudessem ler autores da tradição liberal de forma sistemática e profissional, a quase inexistência de agentes na mídia que não fossem de têmpera à esquerda, fechando aí também, a possibilidade de um debate que não fosse filiado, de alguma forma, ao PT.

Uma lista básica de liberais: John Locke, do século 17, considerado pai da tradição em questão, mais conhecido entre nós no mundo acadêmico, porque celebrado pelos iluministas franceses e por ser empirista, Adam Smith, do século 18, John Stuart Mill e Alexis de Tocqueville, ambos do século 19, Isaiah Berlin (meu preferido), Ludiwig von Mises e Friedrich Hayek, os três do século 20, e, por último, citaria o ainda vivo Thomas Sowell.

É claro nesta brevíssima lista que transitamos por autores distintos, alguns mais filósofos da política ou moral, outros mais economistas. A têmpera liberal transita da economia à política, passando pelo essencial terreno moral. A moral, normalmente, é esquecida pelos afoitos liberais de mercado
entre nós. E por moral aqui não me refiro ao ato de “cagar regra”, mas de refletir acerca dos impasses e dos dramas da liberdade e do caráter.

Não vou me ater a dar uma definição histórica do termo. Parte da imaturidade do pensamento liberal entre nós é a falta de compreensão histórica de como essa escola se constituiu. Farei uso da definição do historiador britânico Tony Judt (1948-2010), em si, um social-democrata europeu: “Um intelectual liberal é alguém atraído pela imperfeição”. Neste sentido, alguém que deveria ser, por definição, um antiutópico. Da lista dada acima, entendo que Isaiah Berlin é um exemplo típico desta definição (alias, Tony Judt pensava principalmente nele quando cunhou essa definição).

O que seria uma utopia liberal? Seria imaginar que existiria o homem de John Stuart Mill, no meu entender, o mais utópico dos liberais em política. Von Mises me parece o mais utópico em economia. Se o homem de Rousseau não existe, na sua dimensão de harmonia entre desejo e necessidade em interação com os limites naturais e sociais, ta pouco existe o homem de Mill. Ou um mundo em que a história possa reduzida ao combate entre Estado e propriedade, como descendentes de Von Mises parecem crer.

Ninguém suporta “ser livre” o tempo todo. Ninguém reinventa os modos de vida o tempo todo. Ninguém vive a autonomia de Mill na vida real. Ninguém “debate ideias” o tempo todo. Estamos mais próximos de tomar ansiolíticos. Tampouco a utopia de Von Mises de um “mercado puro” resiste à realidade imperfeita do homem. Enfim, o homem de Mill e o homem de Von Mises são quase tão utópicos quanto o de Marx.

“Ser liberal” é suportar um ônus de abandono na vida que faz dessa forma de pensamento quase uma ética de uma sociedade guerreira antiga. E mais: a promessa de que “trabalhando, você melhora de vida”, é verdade, mas nem sempre. Por isso os liberais acabam mentindo quando fazem marketing político. Isso não  significa que o mercado não produza mais riqueza do que o mundo planejado. Mas, pra você melhorar de vida há que sangrar, e nem sempre se sobrevive a esse sangramento.

Por outro lado, não existem “valores indivisíveis”. A liberdade não é “uma coisa” que você encontra andando em Wall Street. Nem a liberdade econômica ou o mercado são valores absolutos a partir dos  quais se deduz as outras realidades da vida.

Mas, isso não significa que o Estado brasileiro não seja enorme e ineficiente. Entretanto, isso não apaga o fato de que nossa elite econômica enriqueceu graças a esse Estado paquidérmico. A elite brasileira nunca foi liberal, mas sim mesquinha.

 

Luiz Felipe Pondé

Zumbilândia

Ontem fui ao cinema para assistir ao mais recente filme de Marilyn Monroe. É uma comédia para adolescentes, passada no mundo das redes sociais, com a bela Marilyn perseguida por um “troll”.  Brinco?
Claro que brinco. Mas, de certa forma, não brinco: eu já vi o futuro, irmão, e o futuro é homicídio, como dizia o poeta. Homicídio da arte e homicídio de atores.

Que o diga James Dean, morto em 1955 e que terá um novo filme em 2020. O título será “Finding Jack”, um drama passado na Guerra do Vietnã, conflito que Dean não chegou a conhecer em vida.
Vai conhecer em morte, ou em pós-morte, porque a tecnologia, sempre essa deusa caprichosa, vai ressuscitar Dean para seu quarto longa.

Alguns eruditos, confrontados com a ambição macabra de Hollywood e com a ganância da família de Dean, que cedeu os direitos da sua imagem, condenaram severamente o abuso.

Manipular fotos ou filmagens do ator para criar um novo personagem é um desrespeito à sua obra. E uma negação atroz dos princípios mais básicos da arte da representação.

Entendo os eruditos. Concordo com eles. Mas, aqui entre nós, suspeito que James Dean será apenas uma cobaia —e um pioneiro.

A seu tempo, é bastante provável que cemitérios inteiros sejam recrutados pelos grandes estúdios, e não apenas para filmes de mortos-vivos. Humphrey Bogart, se a memória não me falha, nunca foi um super-herói da Marvel. É hora de corrigir essa injustiça.

Aliás, é hora de corrigir todas as injustiças: a noção antiquada de que o trabalho de ator é único e irrepetível, e por isso mesmo dependente de uma personalidade única e irrepetível, não sobrevive à era igualitária em que vivemos. Quem julga James Dean?

Por razões de justiça social, qualquer um deveria poder ser ator, estrelando os grandes filmes da história do cinema.

Hoje, ressuscitamos Dean. Mas a verdadeira proeza será um dia permitir à “geração selfie” a possibilidade de matar as lendas e ocupar o lugar delas nos filmes.

Para que admirar Marilyn Monroe ou James Dean quando nós, com a ajuda dos computadores, podemos fazer o serviço?

Eu próprio, nos meus momentos de megalomania, já escolhi os papéis pelos quais pretendo ser lembrado e premiado. Para que conste, tenciono matar Liberty Valance no faroeste; participar em corridas de quadrigas na Roma Antiga; cantar à chuva na Hollywood dos anos 1920; lutar contra Apollo Creed na Filadélfia; dançar um tango no hotel Plaza, em Nova York.

E, naturalmente, beijar Michelle Pfeiffer depois de tocar “Makin’ Whoopee” ao piano.

Resta, porém, a questão fundamental: será que o público aceitará essas mudanças?

A pergunta é retórica. No admirável mundo novo do entretenimento popular, o público aceita tudo.

Um exemplo: na mesma semana em que soube do regresso artístico de James Dean, o jornal The Guardian informou que a Netflix pretende dar aos assinantes a possibilidade de assistirem a filmes ou séries em modo rápido.

Melhor ainda: em modo rápido sem ser comicamente acelerado, como acontece quando usamos o fast-forward do controle remoto.

Uma série de 12 horas poderá ser vista em quatro, sem prejuízo algum. Um filme de duas horas poderá ser despachado em meia hora. A empresa promete não sacrificar os diálogos; apenas tornar tudo mais “compacto”. Como uma lata de sardinhas, imagino eu.

Desvantagens? Sim, a redução da arte a fast food também é uma forma de transformar a arte em “junk food”.

Mas é preciso não esquecer as vantagens. A mais óbvia é permitir o consumo da maior quantidade possível de séries ou filmes no menor espaço de tempo compatível com a cognição de um símio superior.

Esse milagre será precioso para fazer boa figura com os colegas no trabalho. Imagino a cena: alguém fala de uma série imperdível. O ignorante, envergonhado com a sua ignorância, poderá ir apressadamente ao banheiro e familiarizar-se com a primeira temporada. Se tiver problemas da próstata, ainda consegue
espreitar a segunda.

Depois, nesse futuro radioso em que a tecnologia será soberana, o ignorante poderá regressar ao convívio dos civilizados e até dizer, com um sorriso de orgulho: “Pois é, ser Tony Soprano foi das melhores coisas que eu fiz na vida”.

Se os outros estranharem essa manifestação de loucura, será o ignorante a rir por último. E a perguntar, horrorizado: “Mas vocês assistiram à série com os atores originais?”.

João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

O Muro, 30 anos depois

Quando penso no Muro de Berlim, duas fotografias emergem na minha cabeça. A primeira é a de Hagen Koch, um jovem soldado da Alemanha Oriental, pintando no asfalto uma linha branca para sinalizar onde o muro seria construído.

A segunda fotografia tem Conrad Schumann como personagem. Schumann, também soldado na Alemanha comunista, saltando o arame farpado para fugir para o Ocidente.

Essas duas imagens simbolizavam duas facetas da mesma moeda. Koch era o soldado obediente, que acreditava com fervor na religião comunista e que via no muro a barreira perfeita para impedir a fuga dos seus compatriotas rumo ao “imperialismo capitalista”. Schumann era o homem solitário que, em momento de tensão, adquire coragem e consciência para abandonar o paraíso marxista.

Conhecia razoavelmente bem a história de ambos em 1961, o ano em que o muro foi erguido. Mas desconhecia o que aconteceu quando o muro caiu em 1989.

Felizmente, Frederick Taylor conta o resto da história no seu “Muro de Berlim – Um Mundo Dividido, 1961-1989” (Record).

O soldado Koch, depois do Exército, continuou os seus serviços na Stasi (a temível polícia política do regime) e terminou a carreira como funcionário do Ministério da Cultura.

Quando o muro caiu, foi ele o responsável pelo transporte de 81 pedaços da estrutura para um hotel de Monte Carlo, onde as relíquias foram leiloadas.

Schumann teve uma carreira diferente. Na Alemanha Ocidental, constituiu família, trabalhou na fábrica da Audi e, depois da queda, regressou à terra natal para rever a família e os amigos.

Não foi bem recebido. Para os ocidentais, Schumann era um herói; para os seus, era um traidor —a propaganda do regime comunista nunca lhe perdoou o gesto. Schumann acabaria por se suicidar alguns anos depois.

Eis o grande mérito do livro de Taylor: relembrar o que existe de ambiguidade e ironia na história dessa construção infame.

Essas duas qualidades estão presentes desde o início: quando, em 1961, o mundo acordou para a evidência de uma cidade dividida, não passou pela cabeça das três potências aliadas —os Estados Unidos, o Reino Unido e a França— impedir pela força uma agressão tão óbvia às liberdades fundamentais. Quem estava disposto a uma guerra nuclear por causa de Berlim? Kennedy? Macmillan? De Gaulle?

Obviamente, ninguém. Além disso, e como propaganda anticomunista, o muro poderia ter a sua utilidade.
Igual atitude emergiu quando, em 1989, o mundo voltou a acordar para a evidência da queda do muro.

Quem estava disposto a aplaudir uma Alemanha reunificada? “Eu gosto tanto da Alemanha”, escreveu um dia o escritor François Mauriac, “que até prefiro que existam duas”. A frase poderia ter saído dos lábios de Thatcher ou Mitterrand.

Mas a ambiguidade e a ironia não estão apenas nos grandes estadistas. Também estão nos pequenos. Basta lembrar o rastilho que detonou o muro.

Sim, a situação econômica da Alemanha Oriental era catastrófica. Sim, o reformismo de Mikhail Gorbachev na União Soviética e, sobretudo, o fim da Doutrina Brejnev (tradução: o Exército Vermelho não voltaria a punir os países comunistas que decidissem seguir outros caminhos) foram cruciais. Mas o muro caiu por acaso, depois de um funcionário do politburo alemão, Günter Schabowski, não ter feito a lição de casa.

No dia 9 de novembro de 1989, o Partido Comunista entregou a Schabowski a nova lei da emigração do país. As autoridades prometiam ser céleres na aprovação dos pedidos de viagem, mas em nenhum momento determinavam que as fronteiras seriam abertas indiscriminadamente.

Schabowski, com uma mistura de cansaço e displicência, não leu o documento com atenção. E, quando foi confrontado, em conferência de imprensa, com os pormenores da nova lei, limitou-se a confirmar que os alemães do leste poderiam viajar quando quisessem, sem qualquer impedimento. O resto foi história.

Pois bem: é essa história que o mundo se prepara para festejar, 30 anos depois da queda do Muro de Berlim. Mas se o livro magistral de Frederick Taylor nos ensina alguma coisa é que a história é sempre mais caprichosa do que imaginamos.

Em 1989, nos escombros do muro, os mais otimistas não hesitaram em declarar o triunfo definitivo da democracia liberal.

Mas hoje, olhando para o Leste Europeu, sabemos que a história não chegou ao fim e que as notícias do triunfo da democracia liberal foram manifestamente exageradas. A Polônia e a Hungria, dois casos de sucesso em 1989, são dois casos de retrocesso em 2019. Quem se seguirá?

A ambiguidade e a ironia sobreviveram ao muro. É por isso que os festejos, justos e compreensíveis, devem também ser prudentes.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.