O Muro, 30 anos depois

Quando penso no Muro de Berlim, duas fotografias emergem na minha cabeça. A primeira é a de Hagen Koch, um jovem soldado da Alemanha Oriental, pintando no asfalto uma linha branca para sinalizar onde o muro seria construído.

A segunda fotografia tem Conrad Schumann como personagem. Schumann, também soldado na Alemanha comunista, saltando o arame farpado para fugir para o Ocidente.

Essas duas imagens simbolizavam duas facetas da mesma moeda. Koch era o soldado obediente, que acreditava com fervor na religião comunista e que via no muro a barreira perfeita para impedir a fuga dos seus compatriotas rumo ao “imperialismo capitalista”. Schumann era o homem solitário que, em momento de tensão, adquire coragem e consciência para abandonar o paraíso marxista.

Conhecia razoavelmente bem a história de ambos em 1961, o ano em que o muro foi erguido. Mas desconhecia o que aconteceu quando o muro caiu em 1989.

Felizmente, Frederick Taylor conta o resto da história no seu “Muro de Berlim – Um Mundo Dividido, 1961-1989” (Record).

O soldado Koch, depois do Exército, continuou os seus serviços na Stasi (a temível polícia política do regime) e terminou a carreira como funcionário do Ministério da Cultura.

Quando o muro caiu, foi ele o responsável pelo transporte de 81 pedaços da estrutura para um hotel de Monte Carlo, onde as relíquias foram leiloadas.

Schumann teve uma carreira diferente. Na Alemanha Ocidental, constituiu família, trabalhou na fábrica da Audi e, depois da queda, regressou à terra natal para rever a família e os amigos.

Não foi bem recebido. Para os ocidentais, Schumann era um herói; para os seus, era um traidor —a propaganda do regime comunista nunca lhe perdoou o gesto. Schumann acabaria por se suicidar alguns anos depois.

Eis o grande mérito do livro de Taylor: relembrar o que existe de ambiguidade e ironia na história dessa construção infame.

Essas duas qualidades estão presentes desde o início: quando, em 1961, o mundo acordou para a evidência de uma cidade dividida, não passou pela cabeça das três potências aliadas —os Estados Unidos, o Reino Unido e a França— impedir pela força uma agressão tão óbvia às liberdades fundamentais. Quem estava disposto a uma guerra nuclear por causa de Berlim? Kennedy? Macmillan? De Gaulle?

Obviamente, ninguém. Além disso, e como propaganda anticomunista, o muro poderia ter a sua utilidade.
Igual atitude emergiu quando, em 1989, o mundo voltou a acordar para a evidência da queda do muro.

Quem estava disposto a aplaudir uma Alemanha reunificada? “Eu gosto tanto da Alemanha”, escreveu um dia o escritor François Mauriac, “que até prefiro que existam duas”. A frase poderia ter saído dos lábios de Thatcher ou Mitterrand.

Mas a ambiguidade e a ironia não estão apenas nos grandes estadistas. Também estão nos pequenos. Basta lembrar o rastilho que detonou o muro.

Sim, a situação econômica da Alemanha Oriental era catastrófica. Sim, o reformismo de Mikhail Gorbachev na União Soviética e, sobretudo, o fim da Doutrina Brejnev (tradução: o Exército Vermelho não voltaria a punir os países comunistas que decidissem seguir outros caminhos) foram cruciais. Mas o muro caiu por acaso, depois de um funcionário do politburo alemão, Günter Schabowski, não ter feito a lição de casa.

No dia 9 de novembro de 1989, o Partido Comunista entregou a Schabowski a nova lei da emigração do país. As autoridades prometiam ser céleres na aprovação dos pedidos de viagem, mas em nenhum momento determinavam que as fronteiras seriam abertas indiscriminadamente.

Schabowski, com uma mistura de cansaço e displicência, não leu o documento com atenção. E, quando foi confrontado, em conferência de imprensa, com os pormenores da nova lei, limitou-se a confirmar que os alemães do leste poderiam viajar quando quisessem, sem qualquer impedimento. O resto foi história.

Pois bem: é essa história que o mundo se prepara para festejar, 30 anos depois da queda do Muro de Berlim. Mas se o livro magistral de Frederick Taylor nos ensina alguma coisa é que a história é sempre mais caprichosa do que imaginamos.

Em 1989, nos escombros do muro, os mais otimistas não hesitaram em declarar o triunfo definitivo da democracia liberal.

Mas hoje, olhando para o Leste Europeu, sabemos que a história não chegou ao fim e que as notícias do triunfo da democracia liberal foram manifestamente exageradas. A Polônia e a Hungria, dois casos de sucesso em 1989, são dois casos de retrocesso em 2019. Quem se seguirá?

A ambiguidade e a ironia sobreviveram ao muro. É por isso que os festejos, justos e compreensíveis, devem também ser prudentes.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Covarde chique

Poucos dias atrás, fui indagado por uma jovem aluna sobre como evitar o medo de não ter emprego no futuro. Os jovens, na sua maioria, estão em pânico com o mundo do trabalho que enfrentarão. Não confunda seu filho na Europa brincando de evoluído —graças à grana que você tem— com o resto do mundo. Poucos anos atrás, num programa de rádio com jovens, em que eles escolheram a pauta, discutimos por que, afinal, eles sentem tanto medo.

Iniciei minha resposta à jovem aluna dizendo que temos medo porque temos muitas razões para tê-lo. Se uma jovem tem medo hoje do mercado de trabalho futuro, ela tem toda razão em ter medo.
O mercado de trabalho futuro se delineia um tanto apavorante. Para além das mentiras do povo da inovação e seus orgasmos com impressoras 3D, ninguém tem a mínima ideia de como evitar a devastação causada pela revolução cognitiva em curso: a IA vai devastar o mercado de trabalho sim. Claro que nos adaptaremos, mas, como todo mundo que entende um pouco de adaptação no paradigma darwiniano, sabemos que muitos perecerão no processo. A espécie sobrevive, não necessariamente eu.

Quem viveu na Europa entre 1939 e 1945, pra ficar num clichê, tinha mais razões para ter medo do que nós agora.

Mas, nem por isso, não temos nós as nossas razões: desemprego, imaturidade crescente —até na política, nos dois espectros ideológicos—, longevidade e solidão, devastação da privacidade, aceleração do narcisismo como cultura empoderada, chatices em geral como programa de reflexão sistemática, enfim, um bode.

Mas há um detalhe interessante no modo de vivermos o medo nesses tempos contemporâneos ridículos.

O sociólogo húngaro-britânico Frank Furedi, no seu terceiro livro dedicado ao medo (não há nada traduzido no Brasil dele) “How Fear Works: Culture of Fear in the Twenty-First Century” (como o medo funciona, cultura do medo no século 21), de 2018, identifica, entre outras grandes sacadas em termos de comportamento contemporâneo (sua especialidade sociológica), uma mudança na proposta de como lidarmos com o medo: antes, na cultura ocidental, o medo estava a serviço da coragem ou da salvação da alma, agora, o medo está a serviço de si mesmo porque tanto coragem quanto salvação da alma estão fora de moda. A moda mesmo é ser covarde chique.

O medo se tornou um oceano em si, inundando a vida, sem qualquer virtude que lhe seja oposta. A ideia é, apenas, oferecer fórmulas supostamente científicas de como lidar com ele. O medo perdeu sua estatura na dinâmica ética da vida. Virou um lixo afetivo a nos afogar cada vez mais. Tragamos o grande Aristóteles para a conversa.

Na ética de Aristóteles, a virtude é um comportamento entre dois vícios opostos, que deverá se fazer hábito, ou uma segunda natureza, pela repetição contínua. Não se trata do papinho de busca do equilíbrio comum no budismo de butique (que não é o budismo de verdade).

Fiquemos no caso da coragem, uma das maiores virtudes para Aristóteles (a maior das virtudes práticas para ele é a justiça).

A coragem é um comportamento que se constitui num embate contínuo entre os vícios opostos, temeridade e covardia. O primeiro é a não avaliação dos riscos, o segundo é o derretimento diante dos riscos. A coragem é uma força (a palavra “aretê” em grego deita raízes na ideia de força) que resiste tanto à inconsciência para com os riscos de uma determinada situação quanto à paralisação da ação pelo “excesso” de consciência desses mesmos riscos.

A virtude vai se construindo nesse embate, se fortalecendo, e ao mesmo tempo, dando sentido ao combate: os riscos são muitos na vida, e, ao final, sempre perdemos a batalha. Um combate sem virtude é um combate sem sentido.

Nós, como idiotas da ética que somos, retiramos a coragem da equação e pusemos a noção de estratégia pragmática de sucesso no seu lugar.

O resultado é que buscamos fórmulas e dicas pra enfrentar o medo. Não há nenhuma que preste pelo simples fato de que temos todas as razões do mundo para ter medo. Tornamo-nos uma espécie apavorada e paranoide.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Esquerda lifestyle, direita espiritualizada

Hoje veremos a polarização política na sua versão circense. A esquerda de hoje é um fetiche daqueles que fumam um e se revoltam contra a violência bolsonarista. Detalhe: todo mundo que fuma um investe no crime, mesmo que seja com boas intenções, no meio das Perdizes. Aliás, um dos ícones da esquerda pós-1968 disse que as prisões só servem para reprimir as vítimas da repressão burguesa. Então que soltem os bandidos das prisões! O pensamento, às vezes, atinge as raias da picaretice mesmo.

Os fundadores da gourmetização da esquerda foram os hippies, com a criação da preguiça como forma de crítica social. Preguiçosos sempre existiram, mas preguiça como “atitude política” nasceu com os vagabundos dos EUA dos anos 1960.

A partir do Maio de 1968, em Paris, a esquerda, alimentada por delirantes como Herbert Marcuse, teve que buscar inspiração noutras paragens que não russas. Viram que o povo era reacionário. O povo gosta de bater, humilhar, férias pagas em cem anos, carros, as mulheres adoram caras com grana para desfilar com elas em cima dos saltos, enfim.

A esquerda pós anos 1960 resolveu que iria “democratizar a democracia”, inclusive porque percebeu que, se brincasse muito com os soviéticos de então, iam virar gelo na Sibéria, como bem mostra Mathieu Bock-Côté no seu brilhante “O Multiculturalismo como Religião Política” (Ed. É Realizações, 280 págs, R$ 35,93).

A violência soviética tornou impossível para qualquer pessoa, com o mínimo de consciência moral, apoiar o escândalo bolchevique. Os gulags deixaram os meninos e as meninas do quartier latin com caganeira.

Se me perguntassem qual a diferença de um russo para um ocidental nesses assuntos de guerra, diplomacia e similares, eu diria: os russos não suportam gourmetização.

Putin tem consciência disso. Enquanto nossos movimentos de crítica social falam de coisas como gênero, apropriação cultural, violência simbólica e outros fetiches, os russos invadem o que eles querem, como sempre o fizeram.

Sei que a teoria oficial é a de que a esquerda evoluiu historicamente para novas pautas. Eu acho que deu caganeira mesmo na esquerda, e ela decidiu fazer revolução em festivais de cinema, vernissages e desfiles de moda, lugar de gente inofensiva.

O “estilo” se tornou arma de crítica social, assim como a preguiça se tornara na contracultura. Alguém quer combater a opressão aos negros? Basta inventar um jeito de se vestir ou pentear o cabelo que seja, supostamente, relacionado à África. Ir viver uns 40 anos lá para “resgatar as raízes”, nem pensar. A vida lá é dura demais para quem faz crítica como lifestyle, mais fácil fazer uma instalação sobre cultura afro em Nova York ou falar da opressão enquanto faz lifestyle na semana de moda em Milão. Entre em contato com a África comendo uma pasta num restaurante descolado. Lênin mandaria toda essa moçada para o gulag a fim de ser reeducada.

Mas o fenômeno revolucionário de brinquedo não fica no cantinho da esquerda lifestyle. Existe a direita espiritualizada que acha essa “coisa da corrupção do PT” um horror (como se este fosse o primeiro caso de partido que vira gangue e com as bênçãos da elite) e investe em workshops de espiritualização como combate ao materialismo moderno. Por exemplo: gente que admira profundamente o respeito que se tem pelos mais velhos no Oriente.

O Oriente, aliás, é um fetiche de quem gosta de brincar de espiritualidade. É legal ir lá, inclusive, porque a viagem é longa e dá para curtir a business da Emirates bastante. Quando ouço frases emocionadas do tipo “no Oriente eles não perderam suas tradições”, sei que estou diante de alguém com QI 12.

Pois é, a direita espiritualizada é fofa. Imagine uma dessa gente espiritualizada de butique encarando as bases reais do respeito pelos mais velhos na China. Por exemplo: cale a boca e obedeça aos pais, aos avós, aos bisavós, ao governo, aos ancestrais. Não se aprende a respeitar os mais velhos ficando três dias num workshop na China sobre modo de vida oriental. Aprende-se a respeitar os mais velhos lavando a bunda suja deles, sorrindo.

Luiz Felipe Pondé

Se os homens fossem anjos

Democracia sem direitos ou liberalismo sem democracia só podem acabar em tirania

A democracia liberal está em regressão. Não sou eu quem o diz. É a Freedom House, e pelo 13º ano consecutivo. Causas? Várias. Mas uma delas está na divergência crescente entre “democracia” e “liberalismo”. O mito democrático está chegando ao fim.

Essa é a tese que Yascha Mounk apresenta em “O Povo Contra a Democracia” (Companhia das Letras), talvez o melhor livro que li até o momento sobre o chamado populismo. Resisti bastante, confesso, porque o título enganava.

Erro meu. Mounk não se limita a carpir mágoas contra a fúria iliberal das massas, ou daqueles que as dizem representar. No banco dos réus, também está o “liberalismo não democrático” que desprezou e alienou essas massas. São precisos dois para dançar o tango.

Mas eu falei em mito democrático. E que mito é esse? Basicamente, a ideia de que os destinos da comunidade estão nas mãos do “demos”, do povo, dos que votam.

Na Grécia Antiga, talvez fosse assim, exceto para mulheres, escravos ou estrangeiros. Mas Atenas era uma cidade-Estado, pequena, sem a complexidade das grandes repúblicas. Impossível replicar o modelo na era moderna, por mais que Jean-Jacques Rousseau e seus herdeiros o tenham desejado (e, durante o Terror da Revolução Francesa, praticado; não deu bons resultados).

Quando os “pais fundadores” dos Estados Unidos são obrigados a pensar e a executar o modelo democrático moderno, em nenhum momento tiveram a ilusão de que estavam a imitar a democracia ateniense.

Quando muito, estariam a adotar o modelo republicano de Roma, onde as assembleias populares eram parte do processo político mas nunca a totalidade dele.

Para James Madison, a tirania de um só homem era tão intolerável como a tirania das massas. E a única forma de impedir qualquer um desses extremos de assumir uma posição suprema passava por um governo representativo e por um sistema de “checks and balances”, capazes de frear quer o absolutismo de um rei, quer o absolutismo das multidões.

A tensão entre “democracia” e —no fundo, a tensão entre a vontade popular expressa pelo voto e a soberania da lei na proteção das liberdades e dos direitos fundamentais— esteve presente desde o início da democracia moderna.

Pois bem: para Mounk, essa tensão latente virou conflito aberto.

De um lado, existe a sensação crescente e impaciente de que a arquitetura tradicional das democracias liberais já não funciona —e de que é necessário acelerar a “vontade geral” na prossecução de fins políticos, mesmo que isso implique formas mais autoritárias de organização social.

Do outro lado, e nas palavras certeiras de Mounk, “o sistema político se converte no pátio de bilionários ou tecnocratas” e “a tentação de excluir cada vez mais o povo de decisões importantes irá crescer”.

Como resultado desta divergência, o povo tornar-se-á cada vez mais iliberal e as elites ficarão cada vez mais não democráticas.

Perante esse quadro sombrio, a velha pergunta : que fazer?

O autor tem razão quando afirma que “democracia” e “liberalismo”, apesar de conterem naturezas divergentes, conseguiram coexistir por três motivos essenciais: havia dinheiro para distribuir; não havia redes sociais para incendiar; e a tribo ocidental, etnicamente falando, era mais homogênea.

Essa cola desapareceu: os filhos sabem que não terão uma vida tão confortável como os seus pais; a internet mobiliza os descontentamentos com uma força que James Madison nunca conheceu; e as sociedades multiculturais despertam ansiedades nativas que só um cego não vê.

No livro, Mounk tenta responder a cada um desses problemas com proclamações vagas sobre a necessidade de menos desigualdade, mais educação para resistir à imbecilidade cibernauta e um renovado papel para o esquecido Estado-nação. Difícil discordar.

Mas o grande desafio, ao qual Mounk não responde completamente, é o de saber por que motivo a democracia liberal merece ser defendida. É uma discussão metapolítica, ou até ontológica, sobre as virtudes de um regime político que tenta combinar a escolha livre dos cidadãos com a durabilidade de certos direitos ou instituições que estão acima das contingências populares.

No fundo, é preciso voltar ao básico —“se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário”— para lembrar o básico: ter democracia sem direitos ou liberalismo sem democracia só pode acabar da mesma forma. Em tirania.

João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

 

M.G.T.O.W

Nietzsche, no século 19, fez a crítica do ressentimento. A pergunta capital hoje é: sua crítica estaria perdendo força à medida que o ressentimento passa de afeto reativo a ativo? O ressentido (ou ressentida, para contemplar os idiotas de gênero) saiu do armário e disse: afinal, qual o problema com o ressentimento?

Uma das fronteiras de todo comportamento é ver em si mesmo alguma forma de racionalidade. Quando uma forma de comportamento acha sua racionalidade, teria atingindo sua maioridade (Kant, no século 18, não pensaria diferente essa relação entre racionalidade e maioridade).

O ressentimento está atravessando essa fronteira. Na política já o fez: que se danem os outros que não pensam como eu, o mundo é meu ou o outro me destrói —este é o credo da polarização, ainda que inconfesso.

Para Nietzsche, o ressentido era alguém medíocre, covarde, irrelevante, que se autoflagelava com suas próprias misérias, incapaz de lidar com a indiferença do universo, do mundo e dos outros. Quem é o ressentido emancipado agora? São muitos, mas vejamos hoje o caso dos homens.

Sendo o ressentimento um afeto, é no terreno dos afetos que ele faz seu maior estrago. Os homens passaram à ação: “Men going their own way” (homens que seguem seus próprios caminhos), a forma longa de M.G.T.O.W. O livro da pesquisadora Helen Smith, “Men on Strike” (homens em greve), de 2013, é a Bíblia desses homens que decidiram, racionalmente, recusar a norma social imposta a eles pela sociedade atual.

Gostou da frase “norma imposta a eles pela sociedade”? Sei. Parece frase de feminista. Mas é para parecer mesmo. O M.G.T.O.W. é uma resposta a certos desdobramentos do feminismo no campo do comportamento em geral: amor, sexo, casamento, vida em família.

A racionalidade do comportamento desses homens, descrita por Helen Smith, é que o papel social que cabe ao homem heterossexual no mundo contemporâneo não mais vale a pena o investimento.

O homem heterossexual é apresentado nas mídias, na arte em geral, no poder público, nas escolas, nas faculdades e nas ciências humanas, como um idiota, assassino de mulheres, ogro, estúpido, infantil, ou, na melhor das hipóteses, um tarado insensível.

No mínimo, ele se tornará o idiota escravo que quer satisfazer inutilmente sua mulher. Tolstói, no seu maravilhoso conto “A morte de Ivan Ilitch”, teria sido um profeta desse homem idiota em buscar, sem sucesso, satisfazer o infinito tédio feminino.

Qualquer pessoa minimamente familiarizada com a crítica nietzschiana, veria nessa recusa masculina traços marcantes do ressentimento, no caso, em relação à emancipação feminina.

O homem sempre teve medo da mulher —e Ivan Ilitch é uma vítima deste medo.

A mulher emancipada continuou a fazer as velhas demandas femininas (sucesso profissional do homem, sexo eficaz, joias, vida cheia de eventos, filhos), mas a contrapartida masculina desapareceu. Qual contrapartida?

O homem devia ser corajoso, trabalhador, bom pai, seguro. Trata-se aqui das virtudes normativas do comportamento do bom homem (“the family guy”, como se diz em inglês, “o homem de família”).

Em troca, ele era respeitado pelos filhos e pela mulher como aquele que dedica sua saúde, seus melhores anos de vida e suas habilidades de sobrevivência à família. A destruição sistemática desse homem aconteceu na medida em que toda a cultura escolheu representar o homem através dos seus piores espécimes. Aqui se dá o encontro entre o ressentimento e a racionalidade daqueles que se identificam com o M.G.T.O.W: “se é assim que me veem, estou fora do jogo”.

“Não engravido mais ninguém, porque depois ela leva meu filho embora e para mim sobram só as contas.” A liberação sexual tornou o sexo muito mais acessível e barato pois ela divide as contas.

Sites de relacionamento oferecem mulheres loucas para transar de várias idades e perfis. Se as mulheres decidiram que não precisam socialmente e afetivamente dos homens, esses homens respondem: nós tampouco precisamos de vocês. O ressentimento venceu em ambos os sexos.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

A Busca Pela Transcendência

Apesar de “2001: Uma Odisseia no Espaço” trazer Hal 9000, a inteligência artificial mais famosa do cinema, e isso ser naquele momento um grande trunfo tecnológico do filme, Hal 9000 ficou famoso mesmo pelo seu lado humano: seu erro, seu medo, sua vingança.

O que percebemos em filmes que põem em diálogo o universo e a espiritualidade é que a tecnologia, “enquanto inovação” (termo orgasmático no mundo corporativo) é sempre coadjuvante.

No mínimo, será a primeira coisa a envelhecer no filme. Por isso, tecnologia (como restaurantes e comida) nunca é, de fato, luxo, para quem entende um pouco do conceito de luxo, que é o que permanece, quando tudo mais desaparece.

Deus é puro luxo.

Em “Ad Astra”, colonizamos a Lua com voos comerciais, quem sabe da Latam, da Gol e da Azul. Marte tem humanos que nunca vieram à Terra e lá nasceram. Estamos em guerra na Lua por recursos naturais, o que nos faz sentir estranhamente em casa quando vemos o filme. Os pecados são parte daquilo que chamamos de lar, por isso os utópicos são sempre infantis.

O personagem de Brad Pitt está em busca do pai, interpretado por Tommy Lee Jones, um suposto herói mundial que desapareceu num projeto Lima, que visava buscar algum sinal de vida inteligente para além de Marte.

Quando pai e filho finalmente se reúnem, na órbita de Netuno, o desenlace se dá (sem spoilers demais, por favor).

É evidente o paralelo entre procurar vida inteligente e procurar respostas para nossa solidão cósmica. Ao final, é sempre uma procura por Deus ou deuses (para os menos sofisticados), uma procura pela causa incausada do Aristóteles, princípio que tudo move, sem nunca ser movido.

O universo, pela sua vastidão, escuridão e silêncio (e nossa ignorância sobre ele), é o habitat natural para a dimensão estética dessa busca.

Voltando ao elemento psicológico do enredo. A busca do protagonista também é pelo seu pai desaparecido há 30 anos, que abandou a família na Terra. A criança abandonada que vive no filho adulto e corajoso fala desse silêncio infantil que nos mantém todos presos a determinantes psicológicos —às vezes, insuperáveis.

O amadurecimento é, muitas vezes, uma forma de tristeza a ser transformada em companheira do percurso adulto. Kierkegaard dizia no século 19 que todo autoconhecimento verdadeiro se inicia com
alguma forma de entristecimento. Esse é um fator essencial que o debate infantil sobre felicidade raramente entende.

Brad Pritt é um homem triste no filme, que segue à risca as normas da sua vida profissional. E a humanidade inteira é uma humanidade cansada. Esta é uma das belezas do filme: seguramente, como diz o filósofo Byung-Chul Han, somos uma sociedade do cansaço.

A esperança é que, como diziam Albert Camus e Emil Cioran, o cansaço pode se transformar numa forma inesperada de virtude. E o amor, na última fronteira da vida adulta: poder trabalhar e amar é o clímax da saúde mental (Freud).

 

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.